Ligações que a gente nem sabe que tem

Se eu te pudesse dizer

Aquilo que nunca direi

Tu terias que entender

Aquilo que nem eu sei.

Fernando Pessoa

 

Às vezes gosto das pessoas. Às vezes amo (e me fodo). Às vezes adoro. E às vezes eu sinto um carinho gigantesco e absolutamente inexplicável. Me lembro de duas pessoas despertaram isso em mim de uma forma muito… FOFA (rs). Um chefe e um professor. Teve mais, mas agora só consigo lembrar deles.

E tem um bocado de pessoas que se dissessem que entre nós seria uma receita de carinho genuíno e mútuo, muitos duvidariam. Isso porque geralmente quando nasce um carinho gostoso entre eu e alguém, este alguém frequentemente tem a personalidade absolutamente oposta à minha.

Uma destas pessoas foi meu chefe. Eu com 22 anos, ele uns 50 e poucos. Casado, filhos, netos. Me disseram antes de eu começar a trabalhar ali: olha, eu já vou te avisando… o cara é um italianão que fala alto, grita, manda tomar no cú, fala palavrão. Não vai te assustar, que você é toda docinha, meiguinha e tal.

Eles estavam mesmo achando que eu ia pedir demissão em uma semana. Mas o cara virou um dos meus grandes amigos (até a esposa ciumenta me colocar pra correr). Sentava-se ao meu lado todos os finais de tarde antes de ir embora e conversávamos sobre a vida, a morte, o amor, as pessoas, as coisas engraçadas. Ele sempre me respeitou e nossa amizade sempre foi como a de um pai e uma filha.

Infelizmente, a história acabou mal e a esposa interpretou um dos meus e-mails da pior maneira possível. Devia ser um inocente: oi queridoooooo!!!! Porque eu sempre fui muito muito espontânea. A mulher surtou. Achou mesmo que eu estava dormindo com o marido dela. Mas eu aprendi, já naquele tempo, certas lições; e uma delas é que eu posso ser inocente, como sou, mas o mundo não é (aliás, esta lição é bem cruel de se aprender).

E já naquela época eu fazia teatro – fazia teatro à noite, trabalhava durante o dia. E no último semestre, meu professor/diretor era um cara BEM BEM BEM maluco (aparentemente). Por fora, tinha cara de “caminhoneiro bêbado” como ele mesmo se definiu uma vez, haha, mas por dentro eu sentia que tinha um cara sentimental, sensível, visceral, enfim. Um cara que não sabe direito o que fazer com o que sente em relação às pessoas e ao mundo. E então, ele vai e transforma isso em arte (e deve continuar fazendo isso, porque o trabalho dele é lindo). Assim como aquele meu chefe, de mandar tomar no cú, de falar todos os palavrões em alto e bom tom, de chamar a região da virilha de “IP” e de fazer as montagens mais malucas abstratas e os exercícios mais absurdos intrigantes segundo os meus parâmetros da época (e o mais engraçado de tudo é que eu gostava).

O fato é: não sei dizer por quê eu sentia um carinho tão grande por ele, não sei se foi porque foi o professor que mais me tirou da zona de conforto (e eu AAAAAAMOOOOO quando alguém faz isso rs), o que mais me fez crescer como pess Iooa e principalmente como atriz. Fato é que eu sentia. Cheguei a fazer algumas coisas bem cafonas como escrever textinho no último dia de aula, enfim… coisas que atualmente eu jamais faria (este aqui não conta porque ele não vai ler, hahahahaha) e me dá timidez só de lembrar. Se ele não sabia o que fazer com as coisas que sente sobre as pessoas e o mundo, eu não sabia (nunca soube) canalizar direito meu carinho com as pessoas e enfiava meus pés pelas mãos.

Uma das peças que fiz com ele era um texto alemão (Woyzeck, Georg Büchner) e no dia da divisão dos papéis eu achei tão ridículo todo mundo se estapeando e brigando porque um tinha mais papéis que o outro, que tudo o que consegui fazer foi levantar a mão para interpretar o único que ninguém quis saber – um médico maluco, BEM BEM BEM maluco (BTW, a cena é gigantesca, não acredito que decorei todo aquele texto). O processo pra chegar nele foi “violento” (e começou terrivelmente ruim rs), mas foi a melhor interpretação que eu fiz na vida (segundo meus parâmetros, os dos outros não sei rs). Depois deste semestre e da Mostra, veio o estágio e o meu coração já tinha escolhido quem eu queria que fosse o professor do estágio, mas eu dependia da turma e, felizmente, eles escolheram justamente ele. Portanto, nós ficamos 1 ano com esse cara e meu carinho foi só amadurecendo.

Me lembro de um dia que era véspera de Páscoa e eu tive uma ideia inusitada durante a aula mesmo, queria lhe desejar Feliz Páscoa. Saí e comprei um Kinder Ovo. Quando fui entregar pra ele, ele estava assistindo a cena de algum grupo… lembro-me da ternura que sentiu, se derreteu todo com o Kinder Ovo (hahahaha) o que fortaleceu minha tese de que aquela cara de mau não me enganava.

Outra história que eu tenho pra contar sobre ele é que foi a pessoa quem me convidou (e me convenceu) a entrar no Facebook, na época em que só entravam pessoas com “convite” e tal e coisa. Mas de lá pra cá, nós realmente só tivemos contato através da rede. Uma ou outra conversa inbox, um convite dele para ver sua peça que acabei não conseguindo ver, uma conversa sobre um livro que eu emprestei pra ele (achei que seria uma montagem bacana se ele adaptasse o livro) e que sua filha acabou sem saber que ele já tinha o livro, pedindo-lhe que arranjasse… enfim. Não nos vimos mais, senão um dia no caixa de um supermercado da Mooca (editado: este dia foi exatamente o dia 23 de Agosto de 2013 – o Facebook acabou de me lembrar disso).

Mas carinho é carinho, a gente não deixa de sentir carinho por alguém só porque não o vê mais.

Acontece que há umas 3 semanas atrás, um belo dia, eu acordei, olhei pro teto e SENTI: PRECISO VER O FULANO. PRE-CI-SO VER O FULANO, AGORA. Não dava. Ele não estava em São Paulo. Se ele estivesse certamente teria se surpreendido com uma visita minha naquele mesmo dia, mas não estava. Meu coração ficou APERTADÍSSIMO, senti uma SAUDADE esquisita, uma angústia HORRÍVEL que eu não entendia e não sabia explicar, mas eu repentinamente, DO NADA, estava com muita saudade desta pessoa. Quando me lembro disso eu sinto aquela angústia de novo, porque foi muito muito ruim, MESMO. Eu, que estava vivendo uma situação muito difícil na minha vida, não entendi ABSOLUTAMENTE NADA  do que estava sentindo e supus que não poderia dar muita bola para aquilo, porque estava sentimentalmente muito frágil e vulnerável (é o que uma separação causa).

Na época, no entanto, eu não tive coragem de igualmente surgir do nada e dizer isso pra ele: oi, estou com muitas saudades de você. Mas talvez devesse.

No começo da semana passada ele sofreu um infarto. Está vivo. Mas poderia não estar, não é? E se tivesse ido para os palcos de outras vias, eu não teria tido a oportunidade de fazer com que ele soubesse o quanto é querido para mim.

E as ligações que existem entre as pessoas são infinitas, impalpáveis, inescrutáveis. Inexplicáveis! Você um dia acorda, olha pro teto e sente uma saudade doída de alguém que três semanas depois sofre um incidente grave. Aquele coração apertado, aquela saudade repentina, era isso: um pressentimento. Que especial e que maluco tudo isso, não??? Não tem explicação pra este tipo de coisa, nem tem que ter.  Carinho a gente só sente, e demonstra. Eu acho que sempre fui fiel ao que o meu coração me diz e, quando esteve ao meu alcance, resolvi com um kinder ovo, um texto, uma foto…

O problema comigo acontece quando não posso fazer nada. Não posso falar: Ei, acordei pensando em você. Estou com saudades. Queria te ver. Não posso ir até a pessoa por motivos de força maior. Não posso fazer nada nada nada.  😦

Depois do episódio eu já o fiz perceber, de uma forma bem sutil, que me importo com ele. Mas pra não assustá-lo (de variadas maneiras) não contei toda a história rsrs.

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