Como libertar um coração idiota

Up on melancholy hill
There’s a plastic tree
Are you here with me
Just looking out on the day
Of another dream

Well you can’t get what you want
But you can get me
So let’s set out to sea
‘Cause you are my medicine
When you’re close to me

On Melancholy Hill

[Gorillaz]

Tudo bem, coração. Eu me dei por vencida. Sentei-me e estou aqui com o papel em branco na minha cara – o que é uma das coisas mais horripilantes que podem acontecer à pessoa que escreve. Eu sei que você não leva isso muito à sério, porque sabe que no caso de quem transborda, coisas piores podem acontecer, bem pior do que um papel em branco.

Mas aqui estou. E eu sei que a estas horas você deve estar rindo da minha cara, porque sabe que eu tentei dar uma volta por aí e fingir que tinha um coração novinho em folha, pronto pra outra, praticamente em branco, assim como esta folha de papel. Então eu olhei outros olhos, outras bocas, olhei pra tudo (só não olhei pra outros corações, preciso confessar). Mas todos os caminhos me mostravam a mesma coisa. Todos os caminhos davam no mesmo lugar… aí eu entendi que o amor é um caminho sem volta.

Quando a gente ama alguém, não tem volta. Não interessa o que vá acontecer depois, não tem relação com a presença física de quem a gente ama: o amor existe, ele é e não tem volta. Você ama e pronto, acabou. Não interessa quantas merdas a pessoa tenha feito (e se foi com você). Não interessa quantos episódios existiram que te fez sentir vontade de voar no pescoço dele ou dela. Não interessa se ela está ou não está, se ficou ou se foi embora. E também não interessa se está sozinho (a) ou com outra pessoa. Se você ama e se é amor MESMO, você ama, e pronto acabou.

E será difícil se você tentar fazer os outros entenderem os porquês. Por que tanta condescendência, por que tanta doação, porque tanta abnegação, às vezes? Como agir como se não tivesse existido um passado de muitas dores. De que maneira, ainda assim, a gente só consegue lembrar da parte boa? E como a parte boa é maior do que as outras que nos humilharam, nos fizeram chorar, que doeu e que nos fez sofrer? Eu nem tentarei.

Só quem escolheu amar com consciência e de todo o coração, só quem tem total domínio do próprio coração e sabe direitinho onde está escolhendo pisar – mas ao mesmo tempo não está nem aí – só quem ama entende as próprias razões e os próprios caminhos. Eu não farei mais nada. “Vou tirar a mesa”. Vou deixar a porta encostada e as janelas abertas.

Dito isso, a partir de agora, eu te liberto, senhor coração. Você está livre pra viver o que quiser. Vai encontrar um rumo, vai. Voa por aí, escute todas as histórias, presencie tudo o que puder que valha a pena, transborde onde existe espaço pra receber todo seu mar. Pra preencher espaços vazios. Pra acalentar quem precise de um acalanto. Pra alumiar quem precisa de luz. Pra fazer cócegas em quem precisa rir. Pra fazer sentir quem não sabe chorar. Você está livre pra fazer outros estragos, se quiser. Eu honestamente não sei mais o que fazer com você, senão te libertar: Livre, você vai parar de me incomodar. Então vai e suma da minha frente, porque assim você não vai mais me atrapalhar com tanta aguaceira. Não transborde mais aqui. Transborde sim, mas bem longe… em outro lugar.

[Photo Source: Werner Moser – via Pexels]

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