História sem fim

Quem diz que não tem amor em São Paulo, ela pensa. Diz com razão – e ri um riso solitário, ali mesmo no vagão do metrô. Ninguém nem olha pra alguém. Todo mundo ligado no piloto automático – e lembra que alguém disse que quando tinha uma multidão tudo indo para o mesmo lugar assim subindo a escada rolante ou saindo ou entrando ou seguindo, lembrava um bando de zumbis. Gente semi acordada ou quase dormindo. Vê eu? Passo aqui todo dia, na mesma hora, vejo sempre as mesmas coisas e nenhuma novidade. Não tem gente cedendo o lugar. Não tem gente olhando pra gente porque sim. Não tem sorrisos. Não tem nada. Só mesmo um bando de gente indo tudo para o mesmo lugar.

Somos mesmo um bando de perdidos.

Mas de algum modo, isso não lhe causava tristeza, causava era vontade de rir. Já era uma moça bem acostumada com a vida do jeito que era, não esperava mais muito além do mesmo, o mesmão de cada dia. E foi pensando nisso que espichou os olhos para frente e viu um cara que lhe chamou a atenção porque seus olhos eram bem grandes. Opa! Pausa, aqui!!! Gosta de pessoas de olhos grandes, lhe causa a impressão de que não vai ter ali o velho problema de não ser enxergada, ri novamente – e o cara percebe. Devolve-lhe um sorriso americano (dizem que os americanos têm dentes bonitos), um puta dum sorriso. Ela sente vontade de pegar o smartphone e simplesmente lhe dizer: Ei, dá pra sorrir de novo, moço? Mas resolve guardar na memória. Ia quase esquecendo que a vida continua, fora desta vírgula tão bonita em forma de um cara lindo dos olhos grandões. Depois da vírgula a vida segue, viu, mocinha? E está na hora da senhorita descer.

Levanta-se, sem olhar para o lado. Mesmo sentindo que está sendo observada. Mesmo sentindo que um pescoço dá uma volta completa pra lhe acompanhar, andando na plataforma a caminho da escada rolante, sorri um sorriso como o da irmã caçula quando prendia a risada no banco de trás do carro do pai. Ele as proibia de rir depois de já terem rido à beça, mas tentar contê-las era o mesmo que fazer exatamente o oposto. Então a irmãzinha prendia o riso com toda sua força mas de nada adiantava e era exatamente isso que estava fazendo agora, prendendo o riso. Quando já no topo da escada rolante, resolveu olhar pra trás. Mas o trem já tinha ido embora.

Não, não adianta ficar amoada, diz pra si mesma. A vida é isso, encontros e desencontros. É olhar pra alguém, achar bonito, sorrir e passar. E pronto cabou. Sua tia que falava isso: pronto-cabou. Tudo era pronto-cabou. Tornava as coisas mais simples, ou, aparentemente mais simples. Pronto-cabou.

Mas na manhã seguinte, ela ali mesmo naquele mesmo vagão porque sempre pegava o trem no mesmo local da plataforma no ponto inicial, sentou-se no mesmo lugar e num instante o coração resolveu traí-la (ainda bem que ninguém nos enxerga o coração) e ela, num espichar de olhos, viu o mesmo cara sentado no mesmo lugar. Ele tinha as mãos pousadas em cima da mochila e seus olhos eram gentis, quase doces – e estavam fixos nela, como se não existisse mais nada ao redor. Como se a conhecesse há anos, como se observá-la lhe fosse um prazer tranquilo (apesar que a gente nunca sabe o que se passa na cabeça dos homens). Ela engoliu a seco. Respirou fundo. Baixou o rosto, febril e vermelho. Sorriu um sorriso Monalisa. E seguiu o caminho da roça, a mãe sempre dizia isso: pega o caminho da roça. Tão bom que cada um tenha uma história e que no viver a gente se lembre de coisas bobas, assim. Desta vez lhe espichou um olharzinho antes de descer. O pescoço do moço deu outra volta completa para acompanhá-la. Ela subiu os degraus da escada rolante e resolveu olhar pra trás um pouco antes de chegar no topo. Mas o trem já tinha partido.

No outro dia, o trem estava lotado. Não precisa de muito pra um trem lotar, em São Paulo, forçando uma intimidade não desejada entre as pessoas passantes – se você já andou de metrô em São Paulo, sabe muito bem disso. Se não andou, está sabendo agora. Em pé, ela tenta segurar-se onde é possível, como que flutuando – já que a pessoa em questão é baixinha. Fecha os olhos e pensa que agora está em um carrossel. E que o ar traz um cheiro de algodão doce (e não de pessoas suadas). Ou pipoca. Até que é surpreendida por alguns dedinhos tocando os seus. Dedinhos macios. E seria tudo muito okay, porque não dá pra ser usuário do metrô de São Paulo se você ficar cheio de não-me-toques. Ali é como nas aulas de expressão corporal do curso de Teatro. O fato é que ela tentou buscar ali no meio de tudo, de quem eram os dedinhos. E quando viu, entre um braço e outro, entre um cotovelo e outro, encontrou num buraquinho aquele par de olhos gigantes e o sorriso americano.

Não tirou os dedos. Só na hora de seguir, e uma mão tentou segurá-la, como se pedindo pra ficar. Ela subiu as escadas rolantes e quase ali no meio dela, olhou pra trás. Mas o trem já tinha partido.

Nos outros dias, ficou torcendo para o trem chegar lotado. E chegou.

E dia após dia, de dedos, foram braços que se tocavam. De braços, foi tênis com tênis. Mochila com mochila. Até que num piscar de olhos, o moço do sorriso americano estava ali tão próximo dela que era possível contrair qualquer doença contagiosa. Ninguém ligava pra isso. E possivelmente isso passou pela cabeça dos dois no mesmo instante que ambos riram pra quem quisesse ouvir. Dali para o primeiro beijo, foi uma questão de mais uma semana, quando um nariz encostou com o outro e quando os dedos se entrelaçavam não por obra do acaso, mas pelo que criava suspiros e descompassos.

Ele não sabia o nome dela e nem ela sabia o nome dele. E o caminho seguiu sendo o mesmo, ela descendo antes, subindo as escadas rolantes, olhando para trás cada vez mais cedo para encontrar, sempre, a plataforma vazia.

O trem já tinha partido.

O final desta história fica por conta da imaginação do leitor, pois há que se garantir certa privacidade para nossos dois personagens construirem suas histórias e atarem seus destinos. A narradora se absteve em observá-los para garantir-lhes o espaço devido pra que sim – entre uma partida e outra – exista amor na cidade de São Paulo.

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