Eu e Ele

Dedico aos que choram e sofrem por qualquer motivo 

Você já reparou que se lembra de mim quando está vivenciando alguma coisa bem bonita? Ele me perguntou, os olhos de vidro brilhando reluzentes com a luz, tanta luz, que tinha em volta. Ele tinha rugas. Era bonitão – igual como eu sempre tinha imaginado. Estava vestindo roupas básicas, cores neutras, mas eu não conseguia olhar muito para o resto. Os olhos do Senhor eram magnéticos, não se podia olhar pra outro lugar. É como se a gente pudesse ver o mundo todo – e um mundo lindo – dentro deles. Como se lá dentro morassem todos os segredos do mundo, todos os belos segredos, indecifráveis e por isso sedutores. Deus era assim. Não se podia alcançá-lO. Não se podia entendê-lO. E também não se podia tirar os olhos dele. Eu respondi que sim, Ele tinha razão. Sempre me lembro dEle nas horas – principalmente – nas horas mais bonitas, embora o contrário também fosse verdadeiro. Ele deu uma risada doce, daqueles doces que nunca nos enjoam. Daqueles que a gente vicia e quer sempre mais. Seria possível viciar-se no sorriso de Deus? Seria possível reproduzí-lo em uma folha de papel em branco? Eu tentaria, em vão. Mas se fecho os olhos me lembro. E depois da sua risada doce Ele me disse que prefere ser lembrado nas horas boas. Porque dEle vem as horas boas, também. Disse isso concluindo com uma certa dor – e eu entendi. A gente só se lembra do Senhor quando tem que pedir alguma coisa, não é? Ele voltou os olhos pra mim, sorriu um sorriso quieto, resignado e balançou a cabeça dizendo que sim, era isso mesmo o que a humanidade tinha aprendido a fazer. Mas você, Ele continuou, porque agora a gente tá falando de você, você ainda tem salvação. A última vez que se lembrou de mim… eu estava escutando um concerto para clarinete em A Maior K.622, do Mozart. Isso. Foi exatamente isso. Aí você abriu uma página do seu blog e… escrevi um texto.

Exatamente!

O seu tempo de falar comigo está acabando. Quer me perguntar alguma coisa? Eu perguntei de volta, não podemos ter mais um tempo? Você tem a Mim todos os dias. Mas tem me chamado, tem me pedido, tem chamado por mim. Resolvi dar esse passeio, exercitar as pernas. Dar um rolê. O que quer perguntar?

Pensei bem.

Eu queria perguntar se a gente pode confiar nos sonhos que tem.

Ele esboçou uma feição curiosa. E olhou bem fundo nos meus olhos. Parecia que estava esperando eu explicar minha pergunta. Eu balbuciei: é que as vezes parece que meus sonhos vão morrer na praia. Coisas que desejei de todo o coração a vida toda. Ele sorriu e olhou em seu relógio (sim, o Senhor estava usando um relógio). Pegou a minha mão direita e levou até seus lábios. Beijou-a. O SENHOR beijou a minha mão e eu senti o meu rosto corar. Mas Ele não respondeu a minha pergunta.

Não deu tempo.

6:30 da manhã de domingo. Eu descubro que não desliguei o despertador. Acordo com o coração aos sobressaltos. Não lembrava de muita coisa do meu sonho, mas lembrava que tinha feito uma pergunta, que ficou sem resposta. Se era possível a gente confiar nos nossos sonhos. Me pareceu ter que eu mesma respondê-la. E se eu disser que não, que não é possível a gente confiar naquilo que sonha, meu próprio sonho não terá tido sentido algum. Eu sonhei que Deus era acessível. Que Ele era carinhoso. Que era brincalhão. Que era humano. Que sofria. Que gostava de mim. Que me conhecia. Que me amava. Que me escutava. É, eu creio que sim. É possível a gente confiar em nossos sonhos. Eu acreditava no meu.

Picture: Unplash

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