Sobre como tudo terminou

Tenho pra mim que meu avô era um cara inquieto e que foi essa falta de calma que fez ele ganhar o mundo. Eu não estava lá, mas eu sei exatamente como aconteceu. Levantou-se, como todos os dias e era mesmo um dia como os outros, não tinha absolutamente nada de diferente. Olhou para a parede oposta à da janela, assim que abriu a veneziana, porque o vento fez a folha do calendário balançar. Ele viu de longe que dia do mês era e novamente voltou o rosto para a claridade, apertando um pouco os olhos. Viu de longe uma caminhonete vermelha subindo a estrada de terra. Viu o pai sentado no degrau de frente de casa, fumando um cigarro rústico e folheando um jornal velho. Invariavelmente ele folheava este mesmo jornal, de ponta cabeça. A mãe olhava de dentro da cozinha escura, mexia nas panelas, fazia pão, reclamava de alguma coisa. Então meu avô tinha entendido, no final de um insistente repeteco cotidiano, que aquele lugar não lhe cabia mais. Pegou uma sacola velha, enfiou dentro as únicas duas calças que tinha, sendo que uma era pra ir à missa e outra pra trabalhar. Colocou as poucas peças de roupa que guardava no armário. Um retrato gasto dele pequeno, com o irmão que morreu no trilho do trem e os pais. Guardou consigo o terço de contas que sua mãe lhe deu, a folha de laranjeira que plantou junto com o pai e que havia guardado preso no espelho onde fazia a barba.

Então ele atravessou o quarto e trancou a porta. Sentou-se à mesinha que havia no canto, onde ele costumava desenhar ou ler. E numa folha de papel, escreveu uma carta. Mãe, Pai. Um dia vocês me disseram que lá fora tinha um mundo inteiro pra eu descobrir. Acho que chegou a hora de eu fazer isso. Eu vou voltar e contar pra vocês o que eu vi.

Então ele saiu pela porta dos fundos e foi percorrendo à pé a mesma estrada que a caminhonete vermelha, até chegar à estrada principal que lhe poderia conduzir à cidade. Meu avô já sabia, porém, o que havia por lá. Uma igreja, uma mercearia, uma rodoviária, uma farmácia, uma praça com um coreto e duas ou três ruas com casas de madeira com cachorros nos portões e rosas nos jardins. Ele sabia exatamente que cachorros eram, que um era preto e branco e o outro tinha cor de ouro. Que um era maior e outro menor. E que havia pássaros que os provocavam, pousando nos jardins. Meu avô andou pelas ruas principais da cidade, observando tudo quase anonimamente, sem ser percebido, sem ser visto ou surpreendido. Percorria os olhos por todo o redor, despedindo-se do único além que conhecia. Até que chegou à rodoviária e entrou em um ônibus qualquer. Já dentro dele, afastou a janela para sentir o vento que vinha dos eucaliptos, pastos e florestas. E dentro dele era como se uma canção do Bob Dylan estivesse tocando em modo contínuo, havia um espírito aventureiro e independente nas pestanas que se fechavam pra sentir o sol batendo no rosto e escutar os sons da estrada.

Sem dificuldade, encontrou trabalho em uma hospedaria, em troca de um quarto e um lugar onde pudesse comer e lavar suas roupas. No quarto não havia uma mesa pequena no canto, onde ele pudesse criar e esquecer um pouco do tempo. Então ele sentou-se no chão, colocou um apoio no colo e foi ali que tomava suas cervejas e escrevia cartas para os pais – cartas estas que iam direto para a gaveta da cômoda e de lá jamais saíam. E dias foram se passando, sem que meu avô percebesse que sua futura esposa morava no quarto ao lado. Que ela saía cedo para fazer seus trabalhos de datilografia em um escritório há duas quadras dali e na volta jantava no refeitório da hospedaria. E alguns meses depois, foi ali que eles se conheceram, sentados um de frente para o outro. Os olhos fixos no prato e o pensamento voando e pousando em tudo e todos os que eles deixaram para trás. E nas pequenas garfadas e no gosto desapercebido do alimento, tinha espaço pra um fio de medo de futuro se manifestar e ser identificado – mas nunca admitido. Até que ambos voltaram a si, à hospedaria, ao refeitório e subiram, até que se encontrassem ali um a frente do outro. Ele só conseguiu partir o pão em alguns pedaços, em quanto não conseguia mais tirar os olhos dela. Foi ela quem os baixou primeiro. E primeiro, dividiram os pedaços de pão, para depois dividirem canções, cartas, livros e a própria vida.

Quando meu avô retornou à casa de seus pais, já estava casado e sua esposa já estava grávida. Encontrou os pais bastante envelhecidos e pesarosos, porque jamais esperavam que ele retornasse. E ali ele ficou para sempre. Tirou do bolso as várias cartas que havia escrito, todas sem serem endereçadas. Os olhos da mãe, emocionados, se encheram de água. O pai o abraçou com fortes tapas nas costas, que é como sabia demonstrava amor.

Meu avô conduziu a sua esposa até seu antigo quarto. O quarto estava exatamente do mesmo  jeito que tinha deixado. A cama posta, a janela aberta e por ela, a estrada de terra serpenteada no horizonte. O par de botinas que ele havia esquecido embaixo da cama. O armário velho onde guardava as roupas, a mesa no canto com seus papéis e lápis. E na parede, o mesmo calendário na mesma data em que partira. Era 30 de Janeiro: o dia da saudade.

Image Source: Kaique Rocha

Anúncios
Blog no WordPress.com.
%d blogueiros gostam disto: