O Segredo

Ela entrou no café. Encostou a porta rapidinho e fechou o guarda-chuva. Ia entrando com ele pingando, mas percebeu o porta sombrinhas que tinha ali no canto. Um garçom que estava passando também se ofereceu para guardar seu overcoat. Dali mesmo ela passou os olhos em todas as mesas e o viu no canto. Ele já a tinha visto e apenas piscou. Ele tinha feito a mesma coisa anos e anos antes, no dia em que ela perguntou se ele era quem ela estava pensando. Ao invés de dizer que sim, ele piscou os olhos. Ela mergulhou dentro dos seus olhos, naquele dia. Viu cada detalhe da sua íris esverdeada com pintinhas pretas. Viu que ele estava entregue, mas perdido – bem perdido. Totalmente perdido.

Ali, no café, ele ainda estava com a mesma cara de perdido.

Ela foi até a sua mesa, ajeitando os cabelos e lembrando do quanto deveria estar descabelada, por conta da chuva e da ventania. Enquanto ela pedia licença entre uma mesa e outra, ele reparou no jeito como ela segurava o cabelo pra que não caísse no rosto e como se sentia envergonhada, não sabia bem se por estar passando perto da mesa das pessoas ou se por estar chegando mais perto. Dele.

Não, ele não queria ser pretensioso.

Tinha sabido por um amigo que ela estava na cidade. Tinha lhe implorado pra que reservasse uma horinha em sua agenda. Um café, apenas. Mas tanto ela quanto ele sentiram calafrios quando marcaram o dia e a hora. Ali, há poucos passos que lhes separavam entre uma mesa e outro, não dava mais tempo de voltar atrás.

Não, ele não sabia se tinha feito a coisa certa. Nem ela.

Ele tentou se levantar quando ela se aproximou. Fica, ela disse. E se sentou. Pediu desculpas pelo atraso, como se tivessem se visto na semana passada. Mal deu tempo de encará-lo – ela tinha se preparado pra isso, embora soubesse disfarçar muito bem o que sentia naquele momento – foi interrompida pelo garçom que lhe seguiu. A senhora vai querer pedir alguma coisa? Quer olhar o cardápio? Ela, descompassada, percebeu que os olhos dele estavam marejados. Pediu pelos dois.

Dois cafés, por favor.

Então ele respirou profundamente – com certa dramaticidade, ele sempre fazia assim quando algo de muito sério estava pra acontecer ou pra ser dito. Mas apenas sussurrou que ela não tinha mudado nada. O mesmo rosto de menina. O mesmo jeitinho de sempre entre tímido e insolente. O que lhe causava a mesma mistura de sensações sobre as quais ele (ainda) não tinha controle.

Ah. A gente sempre muda um pouquinho. Foi o que ela conseguiu responder (mentir).

Mas ele não sabia o que dizer pra continuar a conversa.

Você soube que eu publiquei meu primeiro livro? É por causa dele que eu quis te ver, ele respondeu. Ela sorriu. Tinha vinte e dois anos quando se viram pela última vez. Tinha esta idade quando escutou a última palavra que ele disse. E quando preferiu não ter ouvido, nunca, absolutamente nada. Ele tinha trinta e um. Mas só vários e vários anos depois é que ela entendeu: o coração de uma pessoa é insondável. Ninguém pode saber de verdade o que se passa dentro dele. E outra verdade que tinha aprendido é que nem sempre as coisas saem do jeito que a gente quer. O tempo fez com que ela aprendesse a ler as entrelinhas por trás de cada não. Muitas coisas tinham mudado, dentro e fora dela – com ele a mesma coisa. Muito tinha acontecido. Mas só uma coisa continuava a mesma, e os dois perceberam isso ali, olho no olho dentro de um café. Como da primeira vez, em que ela olhou profundamente nos seus olhos. Ali ainda havia o mesmo segredo. O mesmo amor preso, sem poder sair. Não, nada mudou, na verdade. Nós continuamos os mesmos.

Ele estendeu a mão e alcançou os dedos dela, pintados com esmalte vermelho. Não teve coragem de tocar o dedo com a aliança. Abaixou o rosto. Sentiu a pele queimar. Olhou pra fora e viu que a chuva tinha aumentado.

Como você sabe que eu gosto de café? Foi tudo o que ele conseguiu perguntar.

Eu sei que quem fuma gosta de tomar café. Foi tudo o que ela conseguiu responder, quase sem voz. Eu parei de fumar. Ah, eu imagino – ela sorriu. Quando nasceu seu filho, não foi?

Sim.

Então ela perguntou.

Você leu? Li.

Gostou? Ele apenas disse:

Você queria que eu soubesse que você entendeu o que eu fiz. Ou o que eu não pude fazer.

Eu deixei claro no começo do livro, que ele pertencia a quem se sentisse parte desta história.

Então acertei.

Sorriram. Mas nenhum dos dois tocou nos cafés, que naquela altura já tinham esfriado.

Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes. Preferia jamais ter te conhecido, a ter tido aquele desencontro. Era melhor eu jamais ter te visto, nunca, do que não poder ficar com você.

Eu sei.

Não pedi pra sentir o que eu sentia. Mas eu sentia. Só que não consegui fazer o que você queria, naquele momento.

Eu sei.

Mas isso não significa que eu não te amasse. Que eu não te ame. E que não vá te amar pra sempre. Que você não seja a única. Que você não seja inesquecível. E que eu não seja seu.

Eu sei.

Mesmo ele tendo soltado todo o verbo que tinha ficado na garganta por tantos anos, ela não quis se expor naquele momento. Tudo o que ela tinha, tinha sido guardado com ele: uma carta transcrita com letra quase adolescente, com tanto amor que chegava a pesar – pesar no papel, pesar no coração. Todas as palavras já tinham sido ditas anteriormente. Nada havia mudado. Ela mudou, a vida mudou, os tempos mudaram. Vieram casamentos, filhos, trabalhos, responsabilidades. Mas dentro daquele coração de menina (sempre de menina), havia um espaço grande, único, especial e precioso – que pertencia para sempre ao seu primeiro, grande e único amor. Nada disso foi dito. Ela, por um instante, pareceu ficar sem ar e quase precisou trair a si mesma. Ele ainda segurava suas mãos – e entendeu:

Eu sei.

No fundo, no fundo, nenhum dos dois desejavam que a chuva parasse.

Image Source: Unplash

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