O Pensionato

Para Tia Lene

O carro estacionou em frente à velha casa. Primeiro, a mulher mais jovem desceu do banco de motorista. Depois de abrir a porta do passageiro, conduziu uma senhora e suas duas bengalas para a calçada. Segurou em seu braço e as duas olharam para a casa no mesmo instante. Só que uma, tinha a visão limpa de quem olhava o lugar pela primeira vez, ao passo que a outra estava rebobinando o tempo e voltando vários e vários anos, até encontrar aquele mesmo lugar de paredes limpas, novas, pintadas – e uma freira vindo abrir o portão. A mais jovem viu que o portão estava aberto.

_ Vem, madrinha.

Desacelerou o passo até o ritmo da outra, que pé ante pé, se esforçava para permanecer em pé quando tantas memórias acordavam-lhe o coração. A afilhada viu quando ela começou a chorar, sempre do jeito dela – quase ninguém percebia. Olharam-se. A mais nova disse só isso:

_ Vamos.

Entraram por um segundo portão. Um pátio enorme dividia as duas partes internas da casa, mas eram iguais: janelas azuis descascadas, com grades e pequenas portas de entrada. No final do pátio, um homem comia uma marmita e pareceu não se incomodar com a presença delas. No alto da casa, uma janela grande para a qual a mais velha apontou a mão, devagar, sem dizer nada.

_ O quê, madrinha?

Ela então, apenas balbuciou:

_ Madre Alires. Era ali.

Depois, continuou a caminhar até mais ou menos o meio do pátio e parou em frente à quinta porta do lado direito da casa. Percorreu a mão pela porta, sentindo a madeira úmida e oca tingir a ponta dos dedos de marrom escuro. Depois, olhou para a janela e viu as grades envolvidas em teias de aranha. Os vidros eram ainda os mesmos, opacos, mas estava pretos e sujos de poeira. Ela empurrou a porta, com dificuldade e o barulho da porta, emperrando no chão, fez o porteiro tirar os olhos de dentro de sua marmita. A mais nova quis entrar na frente e viu um rato pequeno correr para o banheiro. Levou a porta até a parede, já que não havia interruptor. A claridade iluminou o quarto e pode ver melhor que as paredes estavam descascadas e úmidas e havia lagartixas no teto. A madrinha parou em frente aos pequenos compartimentos que estavam fixos na parede.

_ Era aqui que a gente guardava a nossa roupa. – contou e sorriu. Era a primeira vez que sorria desde que saíra do carro – a roupa, o radinho de pilha que a gente escondia da madre, a nossa maquilagem… diversas coisas. A gente só tinha este pequeno quadradinho. Parece um caixote preso na parece, não parece?

_ Parece sim, madrinha.

Depois, ela olhou para duas camas, uma encostada na parede e a outra mais para o centro do quarto, quase impossibilitando a circulação. Ela não conseguia assossegar a memória. Vinham fantasmas e num passe de mágica estavam dentro de um quarto simples, num pensionato de freiras do Ipiranga, as paredes bem branquinhas pintadas à pouco tempo. Duas camas simples arrumadas, com roupa de cama branca, cheirando à sabão de côco. Um terço na mesinha entre as duas

_ Eram as freiras quem deixavam o terço…

A afilhada sabia que ela estava falando com ela mesma. Não interrompeu. Cruzou as mãos e esperou, pacientemente, enquanto a madrinha via a colega de quarto sentada na cama perto da parece, depilando as pernas com a gilette e escutando música.

_ Abaixa isso, você quer que a madre desça as escadas atrás de ti?

Ela não ligava. Se lembrava muito bem: a companheira de quarto era do tipo subversiva, um metro e oitenta de pura subversão. E isso ficou bem claro no carnaval de 1972.

_ ahahahahaha!!!!

_ O que foi, querida?

_ Nós fomos passar o carnaval com uma família no bairro do Pari, eu e ela. Mas dissemos à Madre Alires que íamos passar uns dias na casa de uns parentes pra estudar…

Na bolsa tinha duas roupas curtas, que iam usar no salão do baile de carnaval, a maquiagem que compraram economizando o salário de dois meses e uma pequena quantia em dinheiro, suficiente para pagar o transporte e comprar duas cubas. A família os levou ao baile de carnaval em Santana. Elas vestiam um short curto e bustiê da mesma estampa, deixando as pernas e a barriga de fora. E foi exatamente essa a imagem, de duas moças seminuas pulando carnaval, que uma freira viu pela televisão, na noite de segunda-feira.

Na quarta-feira de cinzas, as duas entraram de fino pela sala do pensionato e iam subir correndo para o vestiário e lavatório, quando a freira, sentada na poltrona da sala, deixou bem claro:

_ Quero as duas aqui, bem na minha frente.

Então foi uma santa, chamada Madre Alice, que impediu que as duas pensionistas fossem expulsas do pensionato onde ainda conseguiam pagar por um quarto, com o argumento de que eram jovens, eram pensionistas – e não freiras. Tinham, portanto, vida e vontades de jovens. Dali por diante seguiu-se uma vingança velada, quando ambas recebiam uma dieta bem mais modesta do que a das outras moças da pensão, mas novamente eram protegidas pela complacente freirinha de um metro e cinquenta que trazia arroz e ovos dentro de um potinho de margarina, que elas comiam quase que embaixo da cama, para não serem notadas.

_ Bem aqui. – disse a mais velha, olhando para o chão frio e marcado pelo tempo.

_ Não chora, madrinha.

E foram interrompidas por uma sombra na porta de entrada do quarto.

_ Desculpa, mas deu meu horário. Preciso fechar o portão.

Ao sair, enquanto o homem fechava novamente a porta do quarto, a mais velha ergueu os olhos até a janela do alto da casa. E num vácuo entre o tempo, os idos e vindos tempos, trocou um olhar sofrido, mas saudoso, com a religiosa que a observava por detrás da vidraça. Mas como sempre e como tudo, só ela viu.

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