Edifício Campos Elíseos

Fazem treze graus. Muito frio e nenhum sono. Tateia as mãos sobre a geladeira, só poeira. Dedos sujos. Acabaram os comprimidos. À noite escuta aquele zunido insuportável nos ouvidos e o tic-tac interminável do relógio de parede. Velho, como é velho aquele edifício. Pela fresta da cortina entreaberta consegue ver o movimento no bar da esquina. Pessoas conversando, como se as horas não existissem, como se o frio não incomodasse, como se a noite fosse dia. Lembra-se dos cigarros que acabaram ontem. Filou um bem ruizinho do cara do 104. Dá pra sentir o cheiro quando coloca a cabeça pra fora da porta. Corredores e escadas infestadas. O zelador passa sacudindo a cabeça. Desisti. Já falei mais de mil vezes pra abrir a janela quando esta porra estiver acesa, minha mulher sofre de asma, porra. Mas não adianta falar com aquele débil mental. Vive de cigarro, café e sexo. Cada noite é uma vagabunda que ele traz pra cá. Gigolô de merda. Este edifício ainda é um lugar de respeito. Respeito. Espelunca, isso sim. O elevador quebrado há mais de um mês. Os técnicos fazendo um puta barulho em qualquer hora do dia. Uma merda de lugar. Cheiro de coisa velha. Não se pode sair do apartamento, se não quiser tomar vários banhos por dia, porque é infestado de pulgas. Os cigarros. Veste a jaqueta de couro e as botas. Com sorte, o porteiro teria um maço sobrando na gaveta. Isso se estiver acordado, pensa. Qualquer dia entra alguém nesta merda, porque o cara dorme na cadeira. Olha no bolso da camisa e não vê nada. Soca o balcão e o velho porteiro pula. Susto. Ce tem um cigarro, velho? Só se você der uma chupada. Porco, eu não vou comer você. Quando vê a porta se fechar, volta a dormir. O vento gelado corta a pele. Põe as mãos nos bolsos da jaqueta e atravessa a rua. O homem que viu pela janela, toma um chope sentado na mesa do canto. Come o palito de dentes no canto da boca. Usa uma boina e uma jaqueta de couro qual roqueiro. Resolve sentar por ali. Vai querer alguma coisa? O moleque vesgo pergunta. Filho do dono do bar. Por enquanto não. O taxista encosta o carro no ponto, estaciona como um porco. Desce cambaleando e atravessa a rua. Bêbado, não lhe tira os olhos. Gostosa, heim. Esboça uma cara de nojo e desprezo, e volta o olhar para a rua. Por detrás dos prédios, o elevado, em silêncio. São Paulo dorme. Figuram os noturnos. Um traveco encosta na porta do edifício, usa uma microsaia de cotton. O taxista sai com o copinho de pinga e coloca o bicho pra dentro do carro. O dono do bar observa, de boca aberta. Percebe ser observada pelo tal cara da boina. Estão sozinhos. O homem bate a unha do indicador na mesa de ferro. Acende um cigarro. Sorri. Seu peito está aparecendo, diz. Abotoou a camisa errado. Acordei no meio da noite, entende. Tava escuro, nem olhei direito. Espero que meus peitos não tenham te incomodado. De maneira alguma. Quer um cigarro? Me paga um maço. E uma cerveja. Eu moro ali na frente. Te vi pela janela. Aquele prédio velho? Passei na frente. O porteiro tá acabado, ali, babando no balcão. Podia ter entrado e comido qualquer uma, ali na frente dele. Não sabe por quê, mas ela curte o seu jeito sem escrúpulos. Não dá pra ser diferente numa noite fria, figurada por travecos e putas, taxistas bêbados, donos de boteco sádicos, cheiro de cigarro e de sexo. Gosto daquele maço azul, com menos nicotina. Você quer comer alguma coisa? Não dá pra comer neste lugar, é infestado de baratas. O cara coça o saco o dia inteiro e se masturba ali no caixa quando vê as putas na rua. Dá pra escutar o barulho do banco tec tec tec tec tec dançando no chão, sem parar. Não como aqui nem fodendo. Eu tô de moto. Quer dar uma volta? Não. Não pensei em sair. Só queria sair um pouco daquela ratoeira, estou sem sono. Quer subir? Arruma os botões da camisa. O convite não tem volta. Claro que o cara não ia negar uma trepada numa noite fria. Tudo bem, eu tô carente, pensa. Segue atrás dela, depois de dar uma nota de vinte para o vesguinho. Atravessam a rua. Passam pelo mesmo velho roncando, com a cabeça jogada no canto da parede. Não, o elevador não funciona, vai ter que ser de escada. Tira os sapatos, que o zelador enche o saco se ouvir barulho. Cuidado pra não escorregar que esta porra de escada não tem corrimão. Você mora no 96? Não. No 98. Este lugar ganha do treme-treme. Há quanto tempo mora aqui? Um ano. Trabalhei na noite, quase não comia. Não vinha pra casa. Já dormi em motel e tudo. Eu cantava. Mas cansei desta vida. Preciso arranjar um trampo, que a grana tá acabando. Acende meu cigarro. Você precisa de dinheiro? Quero ganhar uma grana. Eu te dou, então. Mas você capricha? Sei fazer um lance bem legal. Você tem camisinha aí? Quer onde? Não, na cama não. Ali. O cheiro dele é ácido. Machuca a pele com a barba, mas ela gosta. E gosta da barriga. Só? Só. Mais, é mais caro. Mas agora eu não quero. Tô com sono. Vai embora. Deixa o dinheiro em cima da geladeira. E um cigarro. Você deixa eu tomar banho? Você me dá o maço? Vai. O registro está solto, cuidado pra não deixar cair. Me dá o maço. Ele joga sobre a cama. Ei. Eu tava indo, mas. Tô cansado. Deixa eu dormir ali naquele sofá? Não. porra, deixa! Eu tô cansado, tô bêbado. Não vou conseguir dirigir assim, vou me matar. Não vai dormir em sofá nenhum. Deita aqui comigo. Me dá um cigarro e me dá um beijo. Vem, que é de graça. A noite tá fria demais e este lugar é um lixo. Eu gostei de ficar com você. Ele deita ao seu lado, e a aquece com abraços, arranhos e pêlos. Cigarros, cerveja e sexo. O Edifício Campos Elíseos sobrevive, assim, ao tempo, ao frio, à miséria e à solidão.

Nota da autora: faz um tempão que escrevi este texto e é um dos que mais gosto, apesar de não ser meio underground. 🙂

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