A moça do churrasco grego

As minhas memórias têm barulhos. Sons, ruídos – ou silêncio. No silêncio é quando dói mais, se não tem barulho, não tem nada, nem um ranger de porta. Nada nada nada. Aí é quando dói mais – ou porque bom ou porque horrível. E tem bons e tem horríveis. Não vou dizer que só tem um, nem outro. Mas é assim, minhas memórias são musicais. Quando eu era jovem e sofria de insônia, foi quando comecei a fumar e a escrever. Não conseguia escrever direito, sozinho, de madrugada, com o papel em branco se tornando monstruosamente vazio em frente aos meus olhos e era porque no longe, no infinito que eu não via, tinha um cachorro chorando. E ele chorava, chorava e chorava. E toda noite era assim. No meio de todos os edifícios as luzes se apagavam, uma após outra até que só restasse uma. O relógio dava várias voltas tic tac tic tac tic tac e eu apagava a luz, abria a cortina e depois a janela. Sentava-me à escrivaninha com o caderno de folhas brancas abertos, uma caneta nas mãos. Um pires onde um cigarro se deitava. Um copo de água. Os olhos secos. E o cachorro, ao longe, que chorava, chorava, chorava. Mas ao invés de eu me irritar – já que não conseguia escrever – eu ia até a sala, abria as cortinas e a porta que dava para a parte de fora do apartamento, uma pequena sacada onde eu colecionava samambaias. E ali, então, eu passei a escutar o cachorro chorando pela madrugada, ao mesmo tempo em que olhava as luzes dos carros ao longe e sentia a brisa do sereno frio entrar na sala do apartamento alugado onde eu morava. Depois de uns dois ou três cigarros, eu pegava no sono ali mesmo e era o cachorro, chorando e chorando e chorando, que me fazia dormir.

Fui conseguir escrever cerca de dez anos depois, quando estava trabalhando no centro da cidade, em um escritório de advocacia. Uma espelunca perto da Praça da República, sem ventilação – o que me obrigava a deixar as janelas abertas e eu não sabia se o pior era ficar com as janelas completamente fechadas, sentindo-me sufocado ou se abri-las e aguentar o barulho do trânsito, das pessoas, dos vendedores da rua, brigas na frente da lanchonete que havia no térreo do prédio e o cheiro dos escapamentos de carro. Você deve estar se perguntando: se era tão ruim assim, o que eu fazia ali? Acontece que na época eu tinha um caso com uma mulher de 45 anos, casada, que era advogada cível naquele escritório. Ela me conheceu quando eu fazia estágio em um banco e quando soube que eu fazia Direito, me levou para o escritório. Falávamos de outros assuntos, aleatórios, não necessariamente vestidos, em sua sala. Menos de Direito. Eu não a achava atraente, mas era conveniente ter um caso, uma relação sexual “estável”, alguém para me trazer cigarros. E muitas vezes, enquanto ela falava e falava e falava sobre várias bobagens que pareciam ser ouvidas por mim, eu tentava escrever alguma coisa, mas nada conseguia. Um dia, a lanchonete do térreo colocou alguém na calçada para vender churrasco grego. Era uma mulher jovem. Sua voz era leitosa, suave, aveludada. Ela parecia ter várias amigas, porque conversava o tempo todo com várias outras mulheres: sobre homens, sobre calcinhas, sobre compras de supermercado, sobre a missa. Várias e várias vezes eu me vi tentado a ir até a janela e conhecer o rosto desta mulher. Foi então que tive uma ideia melhor. Abri a segunda gaveta, peguei meu caderno que estava totalmente em branco e comecei a escrever.

Curiosamente, o barulho do carrinho do churrasco sendo “higienizado” e fechado, no final do dia, embrulhava-me o estômago ainda mais do que o próprio cheiro daquela merda (cheiro que eu aguentava o dia todo, com a janela aberta, porque queria escutar a voz da mulher desconhecida). E não sei por que motivo, comecei a me lembrar deste barulho enquanto comia a outra, de 45 anos. E a associar este barulho a cada trepada ruim que tive na vida. Na época do escritório – foi o que me fez parar, interromper tudo e pedir demissão.

Na última tarde, porém, o gravador registrou todos os sons da calçada. E é o que eu escuto até hoje, quando sinto vontade de escrever alguma coisa. A voz tênue e aveludada da moça, não me excitava – como seria de se esperar. Mas foi a única fonte responsável pelas minhas obras mais fecundas, por vários e vários anos. As melhores histórias e mais celebradas – todas elas foram escritas ao som das histórias periféricas da vendedora de churrasquinho grego. Nunca soube quem era, como era e qual era o seu nome. Mas não teria ido tão longe, se soubesse. Talvez, ainda estivesse no mesmo lugar, olhando para o meu caderno em branco.

Image source: Unplash

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